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Quem são nossos irmãos das calçadas da vida?

Inicio esse artigo colocando sempre nosso bondoso Deus a frente, particularmente não gosto muito de rotular os irmãos como irmãos em situação de rua, porém sei que quem é do serviço social tem esse protocolo a cumprir.

Eu costumo chamá-los apenas de irmãos, e ás vezes isso acaba chocando as pessoas. Costumo chamar no geral todos de irmãos, é assim que sinto que somos, todos irmãos uns dos outros.


Há 13 anos exercendo trabalhos voluntários nas ruas com nossos irmãos, posso dizer a vocês que eu aprendo muito com essa missão que amo realizar.

Muitas vezes passamos nas ruas, naquela correria do dia a dia, e não paramos para dar uma olhadinha naquele nosso irmão que está ali abandonado nas calçadas, temos muito trabalho, temos hora para chegar em casa, hora para chegar na escola, hora para chegar nas igrejas, temos milhares de tarefas e realmente acabamos correndo de um lado para o outro sem notar aquela vida que nos pede socorro todos os dias.

Tem um número de pessoas que realmente foi criado nas ruas, que nasceu nas ruas, mas a grande maioria dos nossos irmãos já tiveram um lar, já tiveram família, muitos já exerceram trabalhos assim como nós.

Porém, muitas vezes, é de um lar que um morador de rua sai e vai para as calçadas da vida, por diversos motivos, costumo dizer que, quando vamos visitar um irmão nas calçadas, temos que lembrar que a calçada é o lar deles, nós estamos indo lá de visita, e como uma visita educada, temos que ter o maior respeito por cada um deles que ali estão.

Na minha opinião, deveríamos unir forças, principalmente em São Paulo (capital), pois diversos irmãos estão doentes.

Muitos irmãos com problemas psiquiátricos onde a área da saúde deveria atuar enquanto diagnóstico, e esses irmãos que não tem mais, infelizmente, a condição de saber quem são, que não tem condições de decidir, estes, deveriam na minha opinião, serem levados para Hospitais Psiquiátricos dignos onde pudesse ser feito um trabalho com eles, até de memória, quem sabe, podendo resgatar informações de familiares, e uma vez tratados estes irmãos, talvez pudessem até retornar ao convívio familiar.

Deveríamos ter trabalhos voluntários de pessoas que visitassem esses locais com frequência, para os irmãos que não tem família pudessem se sentir amparados e não abandonados.

Existem também irmãos que são doentes dos vícios do álcool e das drogas. Vejam, esses irmãos não são pessoas como costumamos ouvir a sociedade dizer, não são um bando de vagabundos, sem vergonha, pessoas que não tem Deus! Não, esses irmãos são verdadeiros escravos dos vícios, é uma doença gravíssima que pode levar a morte.

Quem de vocês já teve alguém em casa, da família com vícios? Ou algum parente que você acompanhou nessa batalha da recuperação?

Quando um irmão está nas calçadas, não adianta dar um emprego para ele, porque muitos deles já tiveram excelentes empregos, não adianta dar uma casa para morarem, porque a maioria já teve um lar; não adianta querer levar essa pessoa a força para uma internação, porque ela vai ficar um período internada, e quando sair terá uma recaída, porque não foi ela que deu o passo por ela mesma de se ajudar, de pedir socorro; foi algo contra a vontade dela, e na minha opinião não se tem grandes resultados com pessoas que ainda não conseguem discernir entre querer ajuda ou não.

O que fazer para ajudar um irmão nosso nessas situações?

É um trabalho de formiguinha mesmo, o passo é o irmão que tem que dar, mas você pode estender suas mãos, deixar claro isso para ele, e quando ele sentir que realmente não quer mais aquela droga de vida, você estará lá para ajuda-lo.

Porque digo isso? Quando um irmão está morando nas ruas, ele já desistiu de tudo, desistiu do trabalho, desistiu do lar, desistiu da família e o pior de tudo, ele desistiu dele mesmo.

Vejam a gravidade da doença que, por vezes começa com uma depressão, uma perda, e vai evoluindo até chegar ao ponto do abandonar-se.

Nesses 13 anos de missão, conheci nas calçadas pessoas extremamente cultas, ex-bombeiros, ex-médicos, ex-advogados, ex-professores universitários, e cidadãos mais simples, mas que tinham uma vida digna, até o dia que algo aconteceu na vida dessa pessoa, e ela não conseguiu lidar com aquele fato, levando-o a abandonar-se e ir morar nas ruas.

Muitos irmãos chegam nas calçadas sem vícios, porém no inverno, quantos iniciam no alcoolismo com garrafas de pinga, tomando para se “aquecerem” e quando percebem já estão no mais alto grau de dependência do álcool?

Nas ruas há todos os níveis sociais de pessoas misturadas. Pensamos que ali só estão pessoas que moraram anteriormente em comunidades, barracos; e que não existem pessoas realmente de vários níveis sociais.

Vou relatar a história de uma vida, de um irmão que conheci logo no inicio das minhas missões nas calçadas...não vou mencionar nome....Todas as vezes que íamos a noitinha levar uma jantinha pra ele, ele nos chamava de loucos, dizia que estava garoando, estava muito frio, que estávamos saindo do conforto de nossas casas para pegar toda aquela friagem, que poderíamos ficar doentes, que tínhamos trabalho de fazer a janta e levar para eles...com o passar do tempo fui pegando amizade com esse irmão de meia idade...um dia finalmente ele decidiu contar sua história para mim, desabafar, porque os irmãos guardam muitos sofrimentos calados, e são difíceis de contar suas histórias, porque mexe nas feridas que muitas vezes estão anestesiadas no álcool e nas drogas.

Esse senhor foi um bombeiro, me mostrou algumas fotos que estavam com ele guardadas, ele com a farda de bombeiro... me disse que tinha escolhido essa profissão porque amava, porque desejava salvar vidas, ele era casado e tinha filhos...me contou que um de seus filhos cresceu dizendo sempre que ele era um herói porque salvava muitas vidas, e que quando crescesse queria ser igualzinho ao seu pai...queria também ser bombeiro.

Ele era contra, dizia para o filho, escolher outra profissão, porque era uma profissão de muitos riscos.. Seu filho cresceu, completou maior idade, e sem que ele soubesse, o filho foi fazer toda caminhada para ser um bombeiro, até que passou nos testes e nas provas e ingressou como bombeiro.

Esse irmão chorando disse que quando descobriu que o filho tinha ingressado como bombeiro, brigou com ele, ele estava contrariando suas ordens, mas o filho disse-lhe que havia crescido vendo o pai salvar vidas, disse-lhe que ele era o exemplo dele , e daria muito orgulho ao pai salvando muitas vidas também.

E assim foi, quando o filho completou quase 01 ano como bombeiro, teve um incêndio muito grande num prédio com muitas famílias, o Corpo de Bombeiros foi acionado, a unidade que o filho fazia parte foi para o local, começaram a combater o fogo e resgatar as vitimas. O filho que já tinha feito vários resgates, escutou crianças chorando e retornou. Eram 03 irmãozinhos. Ele retornou para resgata-los e ao conseguir resgata-los, o prédio desabou com esse bombeiro herói, filho desse senhor dentro; não houve o que fazer, o jovem bombeiro faleceu. Ele disse que foi acionado e foi ao local com suas equipes, e depois de 12h de escavações conseguiu localizar o corpo do filho que ele ainda tinha esperanças que estava vivo; ele começou a chorar e disse depois disso: “Minha vida acabou, larguei tudo, trabalho, casa, família...e aqui estou há mais de 05 anos nas ruas...”

Me emocionei muito na época e ali pude sentir a profunda dor de um irmão nas calçadas e disse para ele: “O senhor tem outros filhos que precisam do senhor, sua esposa...volte pra casa...”

Ele respondeu: “Minha esposa já arrumou outro marido...agora sou a vergonha da família, não mais o herói, bebo e fumo...” – insisti, mas ele foi pontual...disse: “Filha eu já morri quando vim para as ruas...já estou morto...”

Naquela noite rezei com ele, o vi mais algumas vezes, e depois como eles circulam muito entre um bairro e outro nunca mais o vi...

Naquele dia aprendi que atrás de cada irmão, há uma grande chaga...situações tão difíceis e delicadas...cada um tem sua história, cada um tem uma dor, cada um com uma saída, muitos ficam nas calçadas até a morte, outros arregaçam as mangas e seguem em frente...por isso estender as mãos, oferecer nossos ouvidos, e uma palavra amiga, fazem toda diferença para aquele que se julga invisível aos olhos da maioria da nossa sociedade, mas que poderia perfeitamente ser um familiar nosso ali também.


Ana Lúcia Lima - Fundadora do Grupo Ecumênico Misericórdia

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